Antes das 100 lições
Prefácio
Em quase toda carreira de design corporativo, lidar com a empresa pesa mais do que a gente imagina e esse peso só cresce conforme você sobe. Desde cedo já não é só sobre entregar bom design: é a política, o tempo que você gasta convencendo todo mundo de que design vale a pena, os meses de projeto que vão para o lixo por uma decisão tomada no achismo, aquela promoção que não vem. A lista é longa e, quanto mais alto você chega, pior fica.
Não tem um dia específico em que a chave vira. A coisa vai pesando, ano após ano, até que um belo dia você se dá conta: mais cansativo que o trabalho de design em si é tudo o que está em volta dele. É tudo o que você precisa fazer e não está no job description. Isso vai ficando nítido com o tempo e junto vem aquela pergunta que não vai embora: como é que se lida com isso?
A reação mais comum é alguma forma de revolta. Indignação contra a empresa, crítica ao sistema, procura por culpado. Até dá para entender, mas tem um problema: custa muito e muda pouco. Ou seja, não compensa.
Este livro morou na minha cabeça por muitos anos. Eu acumulava as histórias, anotava uma coisa aqui, outra ali, mas nunca sentava para escrever. O estalo veio numa aula do Raul Queiroz, em que discutíamos a importância do aspecto político no trabalho de quem faz design. Saí de lá com a certeza de que era hora de tirar isso da cabeça e colocar no papel.
Escrevo este livro porque cansei de ver designers bons perdendo espaço para designers medianos que entendem o jogo. Cansei de ver gente talentosa achando que ficar reclamando em público resolve alguma coisa e que aprender política corporativa é trair os próprios valores. Eu também já fui assim. Melhorei bastante, mas ainda escorrego. E olha que escrever este livro é, no fundo, uma forma de reclamar mais bonito.
O que eu estou fazendo aqui até tem nome na psicologia. Sublimação: pegar a frustração e transformar em coisa que sirva para os outros, em vez de descarregar numa revolta que não leva a nada. Então, antes de qualquer outra coisa, este livro também é pra mim.
Quero deixar uma coisa clara logo no início. Entender uma regra injusta não é concordar com ela. Eu descrevo o jogo como ele é, não como eu queria que fosse. Não me interprete mal. Quem usa essas regras para passar por cima dos outros está jogando sujo. Aqui a conversa é outra: é enxergar para parar de apanhar sem entender por que e proteger o seu trabalho. O que eu quero é que você pare de jogar às escuras.
As cem lições que vêm a seguir falam de situações reais e de jeitos possíveis de lidar com elas sem vender a alma no processo. Algumas histórias mostram empresas agindo mal, outras mostram designers agindo de forma imatura. Na maioria, os dois lados ajudam a criar o problema.
Antes de seguir, uma ressalva. As cenas que descrevo são generalizações, nada mais. Não descrevem alguém específico e não servem para você sair diagnosticando o seu chefe e os seus colegas. Exagerei algumas situações para ficar mais fácil de enxergar, mas a vida real é bem mais complicada que isso.
Se você procura um livro que valide a sua revolta contra as empresas, não é este aqui. Este livro é para quem está cansado de viver estressado com o ambiente de trabalho e está disposto a enxergar que parte desse estresse é não entender as regras do jogo. As regras existem, só que não estão escritas em lugar algum. Quem aprende, normalmente aprende na base da observação e da porrada.
O que este livro talvez consiga fazer é ajudar você a enxergar melhor o jogo. E só isso já muda bastante coisa. Você começa a sofrer menos com certas situações. Não que elas passem a ser justas, mas pelo menos não parecem tão absurdas.
Isso não muda de uma hora para outra. Tem coisa sobre carreira e design que a gente aprende errado, repete por anos e custa para entender. Não tem atalho.
Uma última honestidade. Este livro está me ajudando também. Ler cada capítulo me obrigou a olhar para onde eu ainda erro. Se você achar que algumas recomendações soam fáceis no papel mas difíceis na prática, é porque são mesmo. Eu sei porque continuo tentando.
A boa notícia, se é que dá para chamar assim, é que dá para aprender boa parte desse jogo. Só que isso exige uma coisa inconveniente: admitir que, às vezes, você também é parte do problema. Alguns capítulos talvez incomodem. Tomara que incomodem do jeito certo. Bora?
Como este livro foi escrito
Num momento em que quase todo mundo usa inteligência artificial de um jeito ou de outro, seria desonesto não contar como a IA foi usada neste livro.
As cem situações dos próximos capítulos vêm de coisas que eu vi de perto e enfrentei na pele durante décadas trabalhando com design. Não nasceram de prompt. Nasceram de reunião inútil, projeto ruim, promoção que não veio e muito perrengue.
A escrita partiu de mim. Eu trazia a mensagem, descrevia a situação, apontava o aprendizado com o máximo de detalhes que conseguia e fui escrevendo as lições aos poucos. Em parte do caminho, usei IA generativa como apoio, para organizar anotações soltas, juntar ideias espalhadas, dar forma a trechos que estavam caóticos, destravar o que não saía. Mas, o grosso do trabalho de dar forma ao texto, escolher as palavras e acertar o tom foi meu e tudo passou por minha revisão, frase por frase.
Não foi um processo simples, aprendi muita coisa no caminho. A IA me ajudou a botar em palavras alguns pensamentos que tinha há anos. Mas, também vi as limitações. Vez ou outra ela mexia demais no texto, deixava tudo certinho demais, com um tom que não era o meu. Tive que brigar com isso na revisão. Isso sem contar os vários capítulos que joguei fora pelo caminho.
Resolvi dizer isso logo de cara porque acho que essa conversa precisa acontecer abertamente na nossa profissão. Designers estão usando IA todo dia. Autores estão usando IA todo dia. Quase ninguém admite. Eu podia ter publicado quieto, mas achei melhor ser transparente sobre como usei essas tecnologias.
O que você vai ler nasceu desse trabalho: escrita minha, experiência minha, com algum apoio de IA e muita revisão. As ideias são todas minhas e eu respondo por elas. Assumo total responsabilidade por tudo o que está escrito no livro.
Boa leitura.